Armando Augusto Salgado Freire

Armandinho foi um mestre da guitarra portuguesa e uma figura central da música lisboeta. O seu toque elegante e expressivo transformou a guitarra numa voz solista cheia de emoção. As suas composições permanecem como clássicos intemporais do repertório português

1891

Armando Augusto Salgado Freire nasce em Lisboa, no Pátio do Quintalinho, perto da Rua das Escolas Gerais, em Alfama, a 11 de Outubro de 1891. Com o pai aprende a tocar bandolim e aos dez anos, começa a interessar-se pela guitarra portuguesa. Quatro anos depois, em 1905, com apenas 14 anos, apresenta-se em público pela primeira vez, no Teatro das Trinas, Madragoa.

1914

Em 1914, conhece e torna-se discípulo do mais famoso guitarrista da época - Luís Carlos da Silva, conhecido por Luís Petrolino. Mantem diversas profissões (meio-oficial de sapateiro, moço de bordo, operário da Companhia Nacional de Fósforos, servente do Casão Militar ou fiscal do Mercado da Ribeira).

1925

Armandinho estreia-se como guitarrista profissional no Olímpia Club, na Rua dos Condes, acompanhado à viola por João da Mata Gonçalves. Em 1925 acompanha cantadores e cantadeiras no Solar da Alegria, local de culto dos amantes do Fado que, amiúde, ali se deslocam para se deliciarem com as "improvisações" de Armandinho ou para ouvi-lo interpretar as composições do seu Mestre, Luís Petrolino.

1926

Em 1926 faz a primeira gravação em Portugal em microfone de bobina elétrica móvel. Grava seis composições, acompanhado na viola por Georgino de Sousa, para a His Master’s Voice, que em Portugal é financiada e vendida pela Valentim de Carvalho. Em 1928, grava em duas sessões no Teatro S. Luís, um conjunto de Fados, variações em tons diferentes uma marcha, mais uma vez editados no formato de 78 rpm. Estas faixas serão reeditadas em CD pela editora Heritage, em 1994.

1922-1936

Armandinho é dos primeiros a realizar digressões artísticas fora do continente português. Em 1922 anuncia a sua ida a Espanha e a Inglaterra com João da Mata Gonçalves. Entre 1932 e 1933 desloca-se em tournée pelas Ilhas portuguesas, por Angola e Moçambique. Sobre as suas tournées, relata o próprio em 1936, na publicação "Azes do Fado": "Constituímos um pequeno grupo, que foi muito bem acolhido: Ercília Costa, João da Mata, Martinho de Assunção e eu. Mais tarde, animados pelo êxito deste primeiro voo, organizámos uma «tournée» à África (...). Percorremos as Costas Ocidental e Oriental. (...). A terceira «tournée» em que entrei, porventura a mais importante, já pelo número de artistas, já pelo reportório, foi ao Brasil, Argentina e Uruguai. Era a Embaixada do Fado, embaixada luzidia em que figuravam, além da minha humilde pessoa, Maria do Carmo, Maria do Carmo Torres, Lina Duval, Branca Saldanha, José dos Santos Moreira, Alberto Reis, Felipe Pinto, Joaquim Pimentel e Eugénio Salvador."

Músico autodidata, toca de ouvido e, para além de um excelente executante, é também compositor de grandes melodias. Autor de muitos Fados e variações, criou temas que se tornaram "clássicos", casos de "Fado Armandinho", "Fado de S. Miguel", "Fado do Cívico", "Fado do Bacalhau", "Fado Mayer", "Fado do Ciúme", "Fado Estoril", "Variações em Ré Menor", "Variações em Ré Maior", "Ciganita", "Fado Fontalva" e "Fado Conde da Anadia", entre muitos outros.

1917

A sua primeira composição foi o "Fado Armandinho" e, para o teatro, o "Fado do Cívico", cantada por Estêvão Amarante na revista "Torre de Babel", levada à cena no Teatro Apolo em 1917. Depois, também para teatro, compôs o "Fado do Bacalhau", interpretado por José Bacalhau a que se seguiram numerosas colaborações.

São inúmeras as vozes fadistas que acompanhou: Alberto Costa, Maria Vitória, Ângela Pinto, Adelina Ramos, Berta Cardoso, Madalena de Melo ou Ercília Costa, entre muitos outros.

1930

Armandinho atuou nas mais emblemáticas casas de Fado de Lisboa. Em 1930, torna-se empresário, quando abriu o seu próprio espaço no Parque Mayer, o Salão Artístico de Fados. Para além de João da Mata, Georgino de Sousa ou Martinho d'Assunção, outros grandes violistas tocaram com ele, entre os quais se destacam Abel Negrão, Fernando Reis, Santos Moreira ou Pais da Silva.

As suas interpretações são suaves e subtis, incluem pianinhos que retirava da guitarra tocando com as suas próprias unhas e, para determinados efeitos tímbricos, recurso à surdina. Armandinho revelou-se um marco na execução da guitarra portuguesa, criando "escola" onde se filiaram outros grandes nomes como José Marques Piscalareta, Carvalhinho, José Nunes, Jaime Santos, Raul Nery ou Fontes Rocha, entre outros.

O guitarrista exibia uma técnica adaptada aos fadistas que acompanhava, criando uma espécie de diálogo que evidenciava as particularidades interpretativas dos cantadores e que lhe permitia assumir uma posição de igualdade com os fadistas e não a subalternização dos guitarristas muito vulgarizada nas primeiras décadas do século XX.

1946

Armandinho faleceu a 21 de Dezembro de 1946 na sua casa situada na Travessa das Flores, em Lisboa, deixando o Fado de luto como escreveu na sua capa o jornal "Guitarra de Portugal" de 1 de Janeiro de 1947. Deixou viúva e um filho, também guitarrista: Armindo Freire.

Foi um dos membros fundadores da Sociedade de Escritores e Compositores Teatrais Portugueses em 1927. Desta forma assumiu-se como responsável pela recolha de muitas melodias de Fado e pelo registo dos seus autores naquela sociedade, facto que nos permite o conhecimento atual de muitas destas melodias.

Para além do compositor e intérprete, Armandinho foi um mestre e referência. O seu estilo definiu uma escola e influenciou decisivamente o desenvolvimento da guitarra portuguesa no século XX, deixando uma herança que ainda hoje se sente tanto no fado tradicional como nas abordagens mais contemporâneas ao instrumento.

Armandinho não foi apenas um virtuoso: foi um poeta da guitarra portuguesa, alguém que transformou seis pares de cordas numa linguagem emocional profunda e intemporal. A sua obra permanece como um dos pilares fundamentais da música portuguesa e um símbolo maior da identidade sonora de Lisboa.